segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Meditações para o tempo de Natal (V)



JESUS SOBRE A PALHA.


Jesus nasce no estábulo de Belém. A sua pobre Mãe não tem lã nem pluma para confeccionar um leito conveniente ao tenro Menino. Que fará então? Ajunta um pouco de palha numa manjedoura e nela o deita. Mas, ó céu! Esse é um leito demasiado duro e penoso para uma criancinha recém-nascida! Os membros duma criancinha recém-nascida! Os membros duma criancinha são extremamente delicados, e, sobretudo os membros de Jesus, formados expressamente pelo Espírito Santo para serem mais sensíveis à dor. A dureza desse leito foi-lhe, pois penosíssima.

Foi uma pena e foi também um opróbrio. Que criança, mesmo entre as mais pobres pessoas do povo, se vê ao nascer obrigada a deitar-se sobre palha? A palha é leito para os animais; e o Filho de Deus não acha sobre a terra senão vil palha por leito! S. Francisco de Assis ouviu um dia ler, quando se achava à mesa, as palavras do Evangelho: Ela o deitou numa manjedoura; e exclamou: “Como? meu Senhor está sobre palha, e eu continuaria sentado?” No mesmo instante deixa seu lugar, lança-se por terra e assim termina sua pobre refeição que rega de lágrimas de ternura ao considerar os sofrimentos de Jesus Menino deitado sobre a palha.

Mas por que Maria, que tanto desejara ver nascer esse Filho adorável e que o amava tão ternamente, por que, em vez de conservá-lo em seus braços, o pôs sobre esse leito de dores? — Eis um mistério, responde S. Tomás de Vilanova. Esse mistério é interpretado de vários modos; mas, entre todas as explicações é a de S. Pedro Damião que mais me agrada: Jesus recém-nascido quis ser deitado sobre a palha para nos ensinar a mortificação dos sentidos. O mundo perdera-se pelos prazeres sensuais; assim perderam-se Adão e grande número de seus descendentes. O Verbo eterno veio do céu para ensinar-nos o amor dos sofrimento, e começou ao nascer a ensinar-nos escolhendo para si o que uma criancinha pode suportar de mais penoso. Foi, pois Ele que inspirou sua Mãe a não conservá-lo em seus braços tão suaves, e a colocá-lo no duro leito a fim de melhor sentir o frio da gruta e sofrer as picadas da palha. 


Afetos e Súplicas.

Ó terno Amante das almas, meu amável Redentor, não vos bastam a dolorosa paixão que vos aguarda e a morte cruel que vos preparam na cruz; quereis começar a sofrer desde o primeiro momento de vossa existência! Sim, porque desde o vosso nascimento quereis começar a ser meu Redentor, e a satisfazer por meus pecados à divina Justiça. Por leito escolhestes a palha, a fim de me livrar do fogo do inferno, aonde muitas vezes eu merecera ser precipitado. Chorais e gemeis sobre a palha para me obter de vosso Pai, por vossas lágrimas, o perdão das minhas faltas. Ah! essas lágrimas me afligem e me consolam. Afligem-me pela compaixão que tenho de vós, inocente menino, vendo-vos sofrer por crimes que não são vossos; consolam-me, porque nos vossos sofrimentos vejo a minha salvação e o amor imenso que me tendes. Mas, meu Jesus, não vos quero deixar só a gemer e sofrer; quero chorar convosco, eu que mereci chorar por causa dos desgostos que vos dei; já que mereci o inferno, não recuso nenhuma pena, contanto que recupere a vossa graça. Perdoai-me, pois, restitui-me vossa amizade e castigai-me depois como vos aprouver. Livrai-me das penas eternas, e depois tratai-me como quiserdes. Não vos peço nenhuma satisfação nesta vida: não a merece quem teve a audácia de ofender-vos, Bondade infinita! Sinto-me contente em sofrer todas as cruzes que me enviardes; mas, ó meu Jesus, eu quero amar-vos.

Ó Maria, fiel companheira de Jesus em seus sofrimentos, nos quais compartilhastes tão vivamente, obtende-me a força de suportar minhas penas com paciência. Ai de mim, se após tantos pecados, eu nada sofrer nesta vida! Feliz de mim, ao contrário, se tiver a ventura de acompanhar-vos na via dos sofrimentos, ó minha Mãe aflita e meu Jesus que fostes crucificado por meu amor.
(Grifos nossos)

(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo – Santo Afonso Maria de Ligório)

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